terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Justiça, essa prostituta de luxo que se vende a quem paga mais e melhor.




Carnaval é pouco para o que o Brasil realmente é. Um país que vive em festa.  Impostos sobre impostos, assim fica fácil bancar tudo, não? Não. O povo precisa suar. Batalhar e ralar muito para ganhar o tão sofrido dinheirinho suficiente e muitas vezes não, para passar o mês. Aí entra as políticas assistencialistas, o que seria de uma parcela da sociedade brasileira sem elas? Quero nem pensar nisso. O fato é que se trabalha muito, para ganhar pouco ou quase nada.

E quem nunca foi assaltado na vida  é porque provavelmente mora em cidades com menos de 10 mil habitantes (onde moro têm cerca de 12 mil, e os assaltos estão cada vez mais comuns, imagine só a situação), e é nesses momentos que o dinheirinho suado vai por água a baixo. Não é uma metáfora descabida não, porque ele se desvencilha da gente como se fosse dissolvido, mesmo. Vira pó. De repente você se depara com um ser encapuzado, ou como está cada vez mais comum de cara limpa mesmo.  Pronto, uma arma calibre 38 é o necessário para você ponderar entre a vida e o trabalho. A vida às vezes vence. Às vezes não.  Você poderia estar de qualquer um dos lados, bastava somente ter nascido e vivido em local diferente e de forma diferente. Você poderia estar segurando a arma se não tivesse tido a base familiar, o carinho e conselho dos pais, dos avôs. Se tivesse que conviver com ausência de condições básicas de vida. Ou talvez não. Talvez você fosse a exceção que teimamos em tratar como regra.

Mas sabe, você poderia ser preso ainda que não tivesse cometido crime algum. Seu único crime era ter nascido negro, pobre e favelado.  Ah, péra aí, Mara. Você é muito extremista! É? Tá que a maioria da população brasileira é formada por negros, indígenas e pardos, mas isso justifica 75% dos homicídios serem cometidos contra negros? E a maioria deles jovens? Tá bem. Vamos fazer assim – Quem se lembra do Amarildo? Oh pobre coitado.

E quem se lembra da Cláudia? Lembra da Cláudia? Mulher preta, aquela que todo mundo diz ter o cabelo ruim – e quem foi o maluco que concluiu que cabelo crespo é ruim? – aquela que todo mundo julga por estar mal vestida, mal arrumada, mal alimentada, mal cuidada, mal colocada na sociedade. Aquela preta que deveria nunca ter existido para o país, porque gente assim é como lixo. Escória. Por que Princesa Izabel libertou os escravos? Cacete! Esse país foi tomado por preto! Voltem para a África, macacos!

São palavras pesadas, né? Para muitos, não.  Taxar os outros de macacos virou tendência. Depois pode até aparecer na TV e ficar famosa.  Vira até campanha para alimentar ainda mais o bolso de apresentadores e jogadores famosos, sem falar em marcas de confecções. É moda ser macaco. #Somostodosmacacos, não é? Não. Deixe-me fora dessa. Sou humana. E continuo acreditando que independentemente da raça, credo, cor, todos somos também. Aliás, nem todos, é verdade. Vejo animais sendo mais humanos que muita gente por aí.

Pois então, e da Cláudia? Lembra mesmo não? Poxa, faz um esforço! É aquela preta, do cabelo ruim (quem concluiu mesmo?) aquela que todo mundo julga antes de conhecer só porque é preta e não tem tempo e nem com que dinheiro se arrumar – porque tudo o ganha vai para ajudar o próximo-, aquela que foi arrastada durante alguns metros pelo carro da PM... Lembrou? Não? Poxa, ela passou em vários canais televisivos, tomou conta de manchetes das principais emissoras durante algumas semanas, porém sumiu de repente todo mundo fechou os olhos, a vida passou, e ninguém mais se recorda da Cláudia.  Até tinha quem dissesse “Não esquecemos Cláudia”. Esqueceram. É coisa de ser humano esquecer-se das coisas, né? Talvez muitos enxergassem Cláudia como isso: Coisa. Boa parte nem enxergava. Aquela preta, do cabelo ruim (quem concluiu mesmo? Tô esperando uma resposta).

Os assassinos de Cláudia foram julgados? Nem sei, você sabe? Ah, pow, eles só foram acusados de mais dois homicídios, balela! Ninguém fala mais nisso porque novos horrores ocorrem todo dia. Olha o menino Bernardo, vítima de seu próprio pai. Chocou o Brasil. E viva a audiência. Eita mídia boa essa nossa. Boa e transparente! Transparente como água de esgoto infestada de ratos em época de procriação!

Mas sabe por que a justiça, ou falta dela, é uma prostituta de luxo? Porque ela  é facilmente vendida e comprada ao léu. E quando a vítima é preta, do cabelo ruim, é ainda mais fácil corromper a justiça. É como diz a famosa música... A carne mais barata do mercado é a carne negra.

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