terça-feira, 21 de outubro de 2014

As Asas de um Anjo, Carolina: o retrato de uma sociedade escrava do machismo.



Carolina, mulher criada por José de Alencar ou seria menina? Não sabemos ao certo. Talvez um pouco de cada. Meio mulher, meio menina. Perdida, louca, vivamente apaixonada pelo novo. E talvez isso tenha contribuído para o desprendimento precoce de suas asas. Os laços de fitas azuis. A inocência que se perdeu. Carolina era apaixonada por Ribeiro. Que, diferentemente do que Drummond dizia em Quadrilha¹, também era apaixonado por ela. Ou fingia muito bem. 

Mas havia um Luís na história, que amava Carolina, essa que amava Ribeiro, que a amava. Ou amava o que ela poderia oferecer. Carolina desgraçou-se. Fugiu, deixou em pedaços o coração daquele que, sem dúvidas, amava-a com todas as forças, desejos, imperfeições e inocência. A doce inocência perdida.


Carolina virou, como se fala mesmo? Mulher do mundo? Da noite? Da vida? Todas as opções, menos dela mesma.  A sociedade não queria mais a Carolina. A Carolina também não se queria na sociedade. Não aceitou o perdão dado, aliás, demorou a aceitá-lo mesmo sem solicitá-lo, de seu pai. Achava que era desgraçada perante a ele. E depois passou a pensar que era ela, a sociedade, que não a merecia. Que ela tende a aceitar os erros de quem veio primeiro, dos homens. Dos Adãos. E condenam, massacram, marginalizam os erros vindos daquelas que nasceram para ser inferior. Evas, pequenas Evas.

Uma mulher desgraçada por um homem numa sociedade machista que não reconhece a liberdade que não seja desse. Uma mulher que desgraçada por esse homem tantas vezes, mas que depois por ele foi restituída. Como se a mulher pudesse ser levada à desgraça e à virtude por um homem. E a mesma sociedade que a recusou por ter fugido, deitado, amado com um homem assim, pode tê-la aceitado por um homem bom, honesto, íntegro tê-la feito “mulher” novamente. Tê-la restituído de todos os seus pecados e aventuras. Única e exclusivamente por ela ser mãe. E agora, este homem não mais a vê como esposa, como mulher, com desejo. Mas com dó. Com máculas. Como irmã. Como um anjo que teve as asas devolvidas. Maridos e mulheres para o mundo, claro, pois só um bom casamento, com um homem cujas qualidades foram citadas, é capaz de transformar uma mulher imunda, em pura outra vez.

O machismo velado se concentra nas mãos dos homens que possuem poder para tudo, enquanto mulheres são as bonequinhas flexíveis. São aquelas passíveis de qualquer manipulação, entregues ao desejo da carne, ao amor impossível e impulsivo, ao amor que transcende qualquer barreira familiar. O machismo está em aceitar o homem que comete erros, e cuspir a mulher que também errou. O machismo está em reconhecer o homem como “SU” ², a mulher como “IN” ³. O machismo está em transformar todas as mulheres em Carolinas, e achar que todas elas podem ser levadas a um amor sem medidas, e ser desgraçadas por ele ou desgraçá-lo, como ela fez com Pinheiro. Mas o machismo também está em achar que todo homem é capaz disso. Da desgraça.

Enquanto o homem achar-se su. Enquanto a mulher achar-se in. Ou enquanto a ordem se inverter, teremos uma sociedade desigual. Enquanto não enxergarmos ambos como iguais, não poderemos nos considerar livres de algo que é responsável por ceifar milhares de vidas todos os dias.  O machismo, ainda que velado, é assassino.


1: Poema de Carlos Drummond de Andrade.
2: Superior.
3: Inferior.


Confira alguns trechos da comédia.


Carolina: Nós, ao menos, não trazemos uma máscara; se amamos um homem, lhe pertencemos;  se não amamos ninguém, e corremos atrás do prazer, não temos vergonha de o confessar. Entretanto as que se dizem honestas cobrem com o nome de seu marido e com o respeito do mundo os escândalos de sua vida. Muitas casam por dinheiro com o homem a quem não amam: e dão sua mão a um tendo dado a outro a sua alma! E é isto o que chamam virtude? É essa sociedade que se julga com direito de desprezar aquelas que não iludem a ninguém, e não fingem sentimentos hipócritas? (ALENCAR José, 2004, p. 419-420)

Meneses – É talvez isto, Carolina, que faz de tua vida um fenômeno, que eu estudo com toda curiosidade. Tu és um desses flagelos, não faças caso da palavra... um desses flagelos que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la dos seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prendaram, mas não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance mas nunca leste o teu coração. Puniste depois Ribeiro que te seduziu, e o Pinheiro que te acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família, deixaste uma filha sem mãe; ao segundo, que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como te castigarás a ti mesma; se não me engano, tu acabas de revelar-me. Espero pelo tempo (ALENCAR José, 2004, p. 435-436).


Carolina – [...] aquela que uma vez errou nunca mais se reabilita. Embora ela se arrependa; embora pague cada um de seus momentos de desvario por anos de expiação e de martírio: embora, iluminada pelo sofrimento, ela compreenda toda a sublimidade da virtude, e aceite como gozo aquilo que para tantas é apenas um dever, um sacrifício ou um costume!... Nada disso lhe vale! Se ela aparecer o mundo arrancará o céu que cobre o seu passado (ALENCAR José, 2004, p. 492).

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