segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Século XXI: o século da mulher sem rosto.




De Curie, D’Arc, Lispector, Queiróz, o mundo está cheio. E ao mesmo tempo... Vazio. Existe um fato incontestável: a mulher do século vinte e um não possui uma cara; face; rosto. É ímpar. Sem definição. Passível de dúvidas, questões e mais questões. Se Eva, possível primeira esposa de Adão, aceitava submeter-se ao macho, hoje, as demais Evas não aceitam a mesma condição sem bons questionamentos.

Macabéa, mulher singela, personagem de Lispector, tinha lá seus hábitos estranhos de higiene (ou falta dela), tinha também seu desejo de viver um grande amor. E tinha também aquela vontade que muitas meninas, hoje mulheres, tiveram: o de chegar ao cinema. Ela chegou lá, ainda que não saiba. Um dos livros e adaptações mais brilhantes do cinema brasileiro. Macabéa encanta, e é capaz de apaixonar os olhinhos daqueles que adoram (tentar) desvendar os mistérios da alma feminina. Macabéa é forte, por quê? Viver em péssimas condições sanitárias alimentando-se de sanduíche – quando tinha; trabalhando – ainda que mal – em situação precária, tendo que conviver com alguém que mais tarde conquistaria o "seu" homem, não é muito fácil, não. Macabéa é forte porque não desistiu de seguir em frente quando teve o coração partido, diferentemente das meninas ingênuas de sua época. Não morreu de amor. Mas viveu por ele. O amor pelo conhecimento. Ela é forte porque soube aproveitar o que a vida ofereceu. Ainda que tivesse oferecido pouco, em péssimo modo. A vida é cheia de Macabéas. Conheço várias. E admiro tanto.

Tem também aquelas Gabrielas. Ah! É o que mais tem. Aquele tipo de mulher com a sexualidade aflorada, que deita com todos, desde que sinta vontade. Tipo de mulher sem pudor, que é feliz porque não se importa com os julgamentos de uma sociedade porca. Sem falar naqueles tipos de Geni, que dá pra qualquer um, mas que tem lá seus caprichos. A sociedade costuma querer jogar pedras nas Genis, afinal, elas são boas de apanhar, boas de cuspir. Mas tem também aquelas Clarissas, a doçura e inocência em forma humana. As que não percebem a maldade, o amor de um homem também recluso. O tipo Clarissa é raro, mas ainda se encontra perdido por aí, num canto ou no outro. Geralmente está perdido em ilusões, em amores que só conheceram em livros – ou filmes, novelas. O tipo Clarissa não sabe o que é a noite. Ou acha que ela é apenas serva da poesia.  E sem falar naquelas Helenas, complicadas até o caroço. Misteriosas. Incógnitas.

Não podemos, no entanto, afirmar que Gabriela, por querer ser livre, seja puta. Seja burra. Seja desonesta. Seja adúltera. Porque Gabriela não ama, e se ama quer deixar livre para poder ser livre.  Gabriela pode deitar com todos, desde que queira, e nem por isso ser menos mulher. Porque Gabriela é guerreira, é trabalhadora, é mulher de fibra. Fala as verdades, desce do salto, aliás, prefere nem subir nele. É arretada. É mulher que não se pode definir, tachar. Porque é o que quer, quando quer, como quer. E se Gabriela amanhecer puta num dia, e santa no outro? Podemos, menos ainda, afirmar que Geni merece apanhar, ser cuspida. Ela se sacrificou pela sociedade que tanto a julgou. Chico é mesmo genial. Começo a acreditar que por trás de uma grande mulher também exista um grande homem. Geni, a recusa da sociedade em aceitá-la é o retrato absoluto de uma população machista, ignóbil, vil, ingrata.  E quem pode dizer que Clarissas são inocentes de todo? Quem sabe o que se passa no coração de uma mulher? Quem sabe se Clarissa não desejou em seu íntimo conhecer a noite sem que esta tenha qualquer relação com a poesia? E se ainda fosse isso, teríamos o direito de julgá-la por aproveitar sua liberdade? E o que dizer das Helenas? Helena era tão misteriosa que chegava a ser transparente. E se Helena foi o tipo de mulher que diz tudo, falando pouco?

É... quanto mais conheço das mulheres, mais difícil acho de compreendê-las. Isso porque sou uma. É que mulher é bicho complicado, e de tão complicado chega a ser simplório. Mulher não tem tipo. Nem tem tipo de mulher. Só é e pronto. Cada qual ao seu modo, ao seu gosto. Do seu jeito. Características semelhantes até encontramos, mas duvide-o-dó encontrarmos uma mulher igual à outra. Sem tirar nem por. E eu nem Tô falando de aparência.  Porque no fim, toda mulher tem um pouquinho de Dora, quando morrer, vai virar estrela, daquelas bem grandes, e você sabe, temos uma infinidade de estrelas, nenhuma igual à outra...




Nota: todos os nomes citados fazem referência à Literatura Brasileira.
Macabéa é a personagem central da obra A Hora da Estrela, escrita por Clarice Lispector (Lispector também citada na primeira linha do texto).
Gabriela é a personagem, também central, da obra Gabriela, cravo e canela, escrita por Jorge Amado.
Geni faz referência à música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, clássico da Música Popular Brasileira.
Clarissa é a personagem central do livro homônimo de Érico Veríssimo.
Helena é a personagem central do livro, também homônimo, autoria de Machado de Assis.

Os sobrenomes: Curie (faz menção à MARIE CURIE); D’Arc (Joana D’Arc); Lispector (Clarice Lispector); Queiróz (Rachel de Queiróz).

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