quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A pós-moderna arte de amar

        

        O avanço da era moderna fragilizou as experiências afetivas por meio da substituição dos valores naturais pelos valores do capital; como já nos diria Marx, a desvalorização do mundo humano cresce na razão direta da valorização do mundo das coisas. Uma vez que os laços naturais que antes uniam os homens uns aos outros foram destruídos para dar lugar aos grilhões do frio interesse, as pessoas e as relações humanas equipararam-se ao nível das coisas, podendo, assim, ser adquiridas, consumidas e, por assim dizer, descartadas, numa dinâmica de despersonalização do indivíduo onde a noção singularidade esvazia-se de seu sentido.
        Não é necessário mergulhar nas infindas discussões metafísicas acerca do amor para perceber em todos os lugares o quão difícil é esse “abandono de si mesmo”, que geralmente caracteriza a forma genuína do amar. Não nos permitimos vivenciar o amor pleno, pelo temor do desgosto provocado pela desilusão sentimental, e por isso somos levados a tratar o outro como uma “peça” sujeita à obsolescência.
          Todavia, quando os dissabores das relações podem ter um fim através de um simples clique no mouse do computador, nossas frívolas experiências afetivas encontram um terreno favorável para expressarem-se. Os relacionamentos virtuais, por exemplo, não exigem experiências éticas profundas ou um compromisso efetivo, e geralmente contribuem com a nossa falta de ímpeto em arriscar o desconhecido ou mesmo vivenciar a intensidade do amor.
          A experimentação de novas formas de sociabilidade, trazida pelo advento da modernidade, fez com que a vivência plena do amor se tornasse algo indesejável, maçante e mesmo perigoso para quem se dispõe a amar, à medida que somos incitados a tomar uma ação defensiva no sentido de aproveitarmos todos os prazeres, desde que eles estejam privados da sua real essência. Nesse hábito de atribuir aos nossos parceiros valor de uso e valor de troca, perdemos cada vez mais a capacidade de nos relacionarmos profundamente com a subjetividade do outro. E (seja tarefa fácil ou não), a transformação imediata dessa situação só é possível através da revalorização da condição humana.

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