quinta-feira, 2 de julho de 2015

A desigualdade que não grita, desespera-se em silêncio. Um silêncio que, por sua vez, sim, é gritante.



Pelo menos 20% dos estudantes que estão em universidades públicas, sejam elas federais ou estaduais, poderiam pagar suas mensalidades tranquilamente em instituições privadas.  Porém a questão não se detém apenas na elitização das universidades públicas, sim no quadro de cursos que possibilitam isso. Estudantes de Letras com mais de 6 salários mínimos representavam,  em 2012, segundo dados do ENADE, 22% no setor privado, contra  17% do setor público, ou seja, a diferença é pequena, assim como a porcentagem. Já para cursos elitizados desde que foi instituído o ensino superior no país, como as engenharias, a média é de 63% para universidades privadas e 58% para universidades públicas. Temos assim que os alunos mais ricos estão em cursos que, futuramente, darão maior rentabilidade, não obstante são esses mesmos os que apresentam maior concorrência, tais como as já citadas Engenharias, Medicina e faculdade de Direito, claro. Isso, por sua vez, abre um leque de questões nas quais não vamos nos aprofundar neste artigo. Não é a intenção. Uma dessas questões se refere à influência da família que já possui o berço, cama, mesa e banho de ouro.  O que vamos tratar nestes escritos, é sobre as possibilidades de um estudante que nasceu em berço de madeira, isso quanto possui onde dormir, certo? Que precisa estudar e trabalhar para trazer sustento a sua casa, enfim, quais oportunidades esse estudante terá de ingressar no ensino superior público frente àquele que nasceu em berço, cama, mesa e banho de ouro? Aqui entra um conceito muito difundido, conhecido, e falho: meritocracia. E por que é falho? Veremos no decorrer do artigo.

Frequentemente trocamos a regra pela exceção, e passamos a fazer da exceção, a regra, uma vez que, em grande parte das discussões, isso nos convém. Por exemplo: nasci pobre, tive que trabalhar desde os meus 10 anos e consegui vaga numa universidade pública porque estudei, batalhei por isso. Mérito meu. Se eu consegui, por que os outros não conseguem?  Bom, há uma série de fatores, citarei  alguns: contextos sociais distintos, possibilidades distintas, bases familiares distintas.  Tudo isso, com certeza, fizeram diferença para que você, pobre que começou a trabalhar aos 10 anos, pudesse se dedicar e chegar lá. A questão é que, assim como afirma Nilton Resende, professor doutorando em Letras na UFAL (Universidade Federal de Alagoas) “toda vitória é uma exceção”. Hoje, temos meios de garantir maior acesso a esses estudantes que, assim como você, pobre que começou trabalhar aos 10 anos, não tiveram as mesmas chances de quem frequentou Ballet, aula de inglês, francês, xadrez, polonês, enquanto não precisava se preocupar com questões financeiras ou com o que teria para comer no jantar, o meio mais conhecido disso são as cotas sociais e raciais. Por conta delas, possibilitamos 7 vezes mais aos estudantes pobres oportunidades de não mudar, mas melhorar a vida.  (Alunos que ingressaram por cotas são mais presentes nas salas de aula – menores índices de falta –, as médias em notas são mais elevadas, além da evasão ‘escolar’ ser  relativamente menor ao que ingressou  por ampla concorrência (Ver Artigo ).


Resumindo: o conceito de meritocracia é falho porque são raríssimos os casos em que estudantes pobres, que moram em regiões defasadas, conseguem ascender socialmente através de universidades por esforço próprio. Aos que conseguem terminar o ensino médio até os 19 anos (apenas 22% dos estudantes mais pobres alcançaram esse feito) já é uma grande vitória. Quanto aos mais ricos? 84,1% alcançam o ensino médio aos 19 anos. Esses números explicam muita coisa, não é? Você que precisa trabalhar para sustentar uma família ou mesmo para se sustentar, sabe como é duro conciliar trabalho e escola, não obstante ainda há N fatores em N lares diferentes com N problemas (alcoolismo, dependência química, violência doméstica, depressão, e os mais diversos atrapalhos, sempre presentes nas famílias que menos possuem amparo).  Vem  a indagação:  desses 22% que saem aprovados do ensino médio aos 19 anos, quantos deles você pensa que recebeu educação de qualidade suficiente para concorrer com os 84,1% que estudaram em boas escolas particulares, com os melhores materiais didáticos do país? Pois é. Em decorrência das citadas e outras inúmeras questões é que a desigualdade social – e, portanto, a exclusão social – continua gritante na nossa sociedade. Conceito de meritocracia só é válido para difundir em mentes menos abrangentes que pobre pode conseguir por seu próprio esforço, merecimento. Até pode. Mas dos 22% citados quantos conseguem? A inclusão melhorou? Melhorou e muito. Porém há tanto ainda por se fazer!





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